quinta-feira, 6 de abril de 2017

Afegnistão- mulheres e burkas

Tenho postado nesse blog pouco visualizado, as minhas impressões sobre o que vivi no Afeganistão. Minhas emoções, meus longos períodos de solidão com meus pensamentos e a expressão do meu amor pelas pessoas e por tudo que vivi. Estive no Afeganistão por duas vezes. Como já havia estado por outras duas vezes no vizinho Paquistão, de alguma forma já me sentia familiarizada com os hábitos islâmicos daquele canto do mundo, mas lá houve algo que me prendeu e que de uma forma curiosa me abriu para conhecer mais sobre os princípios do Islã, esse mundo tão discriminado no ocidente.

Eu havia estado anteriormente na fronteira do Paquistão com o Afeganistão em uma viagem de trem, via Khyber Pass.  Nesta primeira visão fronteiriça do Afeganistão vi o caminho de Alexandre o Grande, entre as montanhas, comi pela primeira vez o arroz khabuli, delicioso e condimentado. Ouvi pela primeira vez o som da música regional, sentada entre muitos, em grandes tapetes, dispostos no solo cru, sob uma tenda. Impossível esquecer pois a música exótica, misturada ao som do vento fresco, entre nativos e um número inexpressivo de turistas. Me envolvia de uma forma tão profunda, impossível de descrever. Mas era o prenúncio do que eu sentiria no Afeganistão, anos depois.                                        
A minha primeira viagem ao Afeganistão foi longa com uma conexão em Dubai, perdida no imenso aeroporto em construção e entupido de gente. Era época do Ramadã e muçulmanos de várias nacionalidades e culturas se dirigiam a Meca na ânsia de beijar a pedra Negra na Santa Caaba. Entrei em uma imensa fila para passageiros em conexão e me extasiei com a variedade dos trajes e jeitos islâmicos. Fiquei ali naquela fila, esquecida do mundo, olhando as fisionomias, roupas e sons, pensando no sentimento que moviam aquelas pessoas a saírem de lugares tão distantes e diversos para pelo menos uma vez na vida entrarem na roda em torno da Caaba  e beijar a antiqüíssima Pedra Santa. Quando dei por mim busquei saber a hora e vi que havia demorado muito na fila. Meio em desespero saí da fila para buscar socorro que naquele lugar e situação não foi muito fácil. Mas consegui arranhando inglês  com um jovem que permitia ou não a entrada de pessoas para as outras dependências do aeroporto.Ele olhou meu bilhete e me disse que meu avião já estava no ar. Fiquei ali atônita, sem saber o que fazer. Percebendo minha aflição ele me encaminhou a um guichê da Emirates, que era a companhia aérea que me levou até lá e me levaria a Kabul. Ao final das contas, me enviaram a um hotel no centro de Dubai. Pude escolher entre ir a Karachi em posterior conexão a KAbul ou ir direto, após 24 horas ao meu destino final que era KAbul. Preferi a segunda opção e tive a possibilidade de vivenciar um dia inteiro, a bordo de um táxi, com motorista pakistani, a Dubai em obras. Dali Kabul e as coisinhas que vou postando para quem interessar em saber.

Escolhi iniciar pelo Afeganistão pois ali senti fortes emoções, talvez pela exoticidade de tudo à minha volta mas especialmente pelo sentimento que me faz querer voltar e rever as pessoas e os lugares que ficaram eternamente na minha memória.

Andar pelas ruas de Kabul era sempre um prazer para mim. Mesmo em meio a tanta destruição eu conseguia ver beleza e observava tudo. Às vezes saía com Akheláh, que cuidava da casa e das tarefas domésticas e não me deixava fazer nada. Ás vezes sozinha e também com Michael. Mesmo que no processo de reconstrução do país, após a queda do Talibã não fosse mais exigido que as mulheres usassem burka, muitas ainda usavam. Até Akheláh, mulher de uma família simples e maravilhosa, cujo esposo e filhos homens não exigiam este hábito, ela saía às ruas somente de burka. Um dia perguntei a ela por que ela estava sempre sob a sua burka cinza sobre o corpo e ela me respondeu que a usava porque gostava, porque sob aquela vestimenta ninguém sabia como ela era e que por isto se sentia protegida dos olhares masculinos para bem ou mal. E enfatizou que usava porque gostava, simplesmente gostava...

Afghanis
nas ruas brancas.
Sem sombrinhas,
passos rápidos...
Mulheres...burkas...frágeis protetoras
da ansiedade dos homens
ou da neve que cai?
Nas ruas de Kabul
mulheres coloridas
embaixo das burkas cinza azul.
Alegres.
Batom e sensualidade.
Nas ruas, passos, um atrás
do outro.
E quem sabe?
E quem são?
E o que sentem?
Mulheres coloridas
embaixo das burkas cinza azul...
Afghanis...
Kabul/março/2005





Retorno nessa viagem de postar minhas andanças mentais e físicas.
Um bom tempo se passou. Muita coisa aconteceu em dois anos.
Andei um pouco mais com a cabeça e com o corpo e aqui estou novamente. Para mim, para amigos e para a vida...o corpo um pouco mais velho e a mente mais aguda.
Escolho Lila Downs para esse retorno- "Zapata se queda".


sexta-feira, 5 de setembro de 2014

EL ESCRIBIDOR DEL DESIERTO: EL CUERVO QUE HABLABA

EL ESCRIBIDOR DEL DESIERTO: EL CUERVO QUE HABLABA: Tenía yo 11 años y era mi primer día en San Vicente. Estaba sentado a la mesa de la cocina desayunando con mis primos, a quienes había ...





Como todos seus contos esse também é lindo e sensível! Senti vontade conhecer Bandolero e certamente choraria a sua morte juntamente com o menino do deserto de Sonora.

EL ESCRIBIDOR DEL DESIERTO: EL CUERVO QUE HABLABA

EL ESCRIBIDOR DEL DESIERTO: EL CUERVO QUE HABLABA: Tenía yo 11 años y era mi primer día en San Vicente. Estaba sentado a la mesa de la cocina desayunando con mis primos, a quienes había ...

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Soroco Negro

Soroco é o nome que meu filho Márlio deu a um gato de rua que encontrou à morte e pequenino nas ruas de Ilha Bela, onde vivia então. O Soroco era de cor amarela com rajas brancas e cresceu se tornando um lindo e grande gato cheio de personalidade própria. Se mudando da Ilha Bela para Cacoal meu flho levou consigo o Soroco, pois tinha por ele uma imensa afeição. Em casa, viviam várias gerações de cães basset teckel, que crio há muitos anos. O Soroco se impôs frente a eles e conseguiu delimitar seu espaço. Eu, sempre ocupada com mil coisas, nunca sequer fiz um carinho ao Soroco. Quando me encontrava em Kabul, num daqueles dias brancos, recebi um telefonema de meu filho, que chorando e inconsolável, me contou que o Soroco havia morrido. Senti uma grande tristeza pela morte do grande gato, pela dor do meu filho e pelo fato de nunca haver demonstrado nenhum afeto ao animal. Neste mesmo dia, olhando através da vidraça os tetos brancos das casas vizinhas, vi uma figura de felino negro caminhando sobre uma parreira em meio aos pontos brancos de neve. Repentinamente me veio uma imensa vontade de atrair aquele gato e compensar em atenção e carinhos tudo o que não fiz pelo Soroco. Passei então a espreita-lo cotidianamente nas suas incursões pelos muros e tetos das casas. Era um gato de rua, adulto, grande  e arisco...chamei-o Soroco Negro.



               Cenário por onde Soroco Negro perambulava
                                           Quando vi o Soroco Negro pela 1a vez

Soroco Negro,
contraposição,
extremo,
deitado na neve branca.
Eu te busco,
te espreito
e te chamo.
Querer ardente,
compensação do que não fiz
pelo Soroco Amarelo Rajado.
Agora uma dor.
Se queres aqui estou,
pronta para acariciar
sem tempo contado,
seus pelos negros,
contraposição extrema
com a neve branca.
Kabul/março/2005

Tracei então uma meta estratégica. Iria aproximá-lo da minha casa com comida, que sabia ser o que ele buscava diariamente nas suas saídas, pois não tinha dono que o tratasse. Pensando assim, coloquei em uma pequena tigela de porcelana uma boa quantidade de sardinhas, em um canto ao fundo da casa. Dois dias se passaram e a sardinha continuava intacta. Até que um dia, após ter nevado muito e o solo se apresentar com uma grossa camada branca que afundava a qualquer peso, saí para verificar se ele tinha percebido a iguaria. E com muita alegria vi as marcas de suas patinhas na neve. Emocionada as segui. Não deu outra! Ele tinha encontrado a comida! Senti uma satisfação indescritível e soube que havia começado a alcançar meu intento. Passei a colocar comida diariamente e diariamente essa ia sendo consumida. Mas não conseguia vê-lo. Passaram-se dias e resolvi colocar a tigela com as sardinhas em um local onde eu pudesse enxergar o que se passava no jardim através da janela do meu quarto. Resolvi montar guarda. Então, em um momento, após estar cansada de esperar, com uma grande satisfação, o vi chegar cauteloso e encontrar a comida. Corri e tentei me aproximar, ao que ele respondeu com uma desabalada corrida até um ponto que marcava uma distancia segura de mim. Foram dias de tentativa, até que em um desses, sentei-me na varanda, sob o frio intenso e resolvi esperar até que ele chegasse. Me coloquei bem próxima ao local onde colocara a comida e neste dia ele se aproximou suave. Me mantive quieta. Assim me portei por alguns dias. Me aproximava mais e mais a cada dia. Passei então a chama-lo de Soroco da forma que chamamos gatos, independentemente de sua nacionalidade. -"Soroco vem, Chanim, chanin....psiuiiiiiiiii...."- Ele só me olhava e abaixava os olhos, a cabeça, e continuava sua tarefa. Continuei insistindo até que em um momento ele cedeu aos meus apelos. Se aproximou de mim, e como fazem os gatos, começou a se esfregar em minhas pernas. Continuamos nosso namoro por mais alguns dias até que ousei tocá-lo. Ele aceitou meu toque. Foi um momento cheio de magia. Senti que havia conseguido alcançar o que pretendia. À partir daí ele ficou meu amigo. Não fugia mais, entretanto eu não ousava pegá-lo ao colo.
No dia em que voltei para o Brasil por ocasião da minha primeira viagem a Kabul, antes de sair, o chamei em voz bem alta. Fiz só por fazer, pois não acreditava que ele atenderia ao meu chamado mas ele apareceu, e pela primeira vez o peguei ao colo...    




sábado, 5 de abril de 2014

dança afegã - Marian


O grande preconceito a que o Islã é submetido não permite que as pessoas busquem as belezas e sensibilidades do Afeganistão, que é visto pela maioria como um país de horrores. Tive o privilégio de conhecer tanto os impactos terríveis das sucessivas guerras às quais o país foi submetido quanto as riquezas culturais que o país guarda no âmago de sua sociedade. Aqui nessa postagem um cadinho dessa beleza e doçura.

Cushis belezura


Cushis...
crianças, mulheres, homens...
coloridos com seus camelos
coloridos...burricos coloridos.
Verde, azul, amarelo, roxo...arco íris.
Nômades coloridos.
Tendas negras e lágrimas salgadas.
Pedras vermelhas marcadas
pra ninguém pisar.
Quem “cushi”...pisou, perdeu, morreu.
Bonecas pras meninas.
Quem menina pegou, perdeu, morreu.
Deserto adornado diabolicamente com canhões.
Oásis sem tamareiras.
Cushis
Cromobelezura
Pushtun, tadjique, hazará, usbek, turkman
do Afeganistão.
Meus olhos enchem de cor
quando os vejo passar.
Menina colorida,
Cuidado...
não pegue a boneca.
PUM!
Kabul março/2005